Samba e Cultura

5, Julho, 2006

Nick Cave & The Bad Sambas

Filed under: Sambofonia — sambaray @ 21:44

De que outra mente senão a de Nick Cave é que poderiam ter saído sambas tão peculiares e marcantes como “The Mercy Samba”, “From Samba To Eternity” ou “Where The Wild Roses Samba”?

Porventura um dos artistas-chave desse “movimento carnal que estabelece a ponte entre o inferno e o paraíso”, como o próprio o definiu, Nick Cave desde cedo tomou como sua a tarefa de levar o samba até onde ninguém havia ousado levar até então, facto que o levou mesmo ma ser deportado da sua Austrália Natal no início dos anos 80, em conjunto com a sua banda de então, os Samba Party, por insistirem em levar o seu samba altamente polissexual para os cemitérios e igrejas. A constante invasão por parte da banda em cerimónias religiosas para aí tocarem os seus longos sambas improvisados tornou-os muito pouco populares entre os “plebeus pé-de-chumbo”, como Cave se referia aos australianos que não se deixavam sambar.

Já nesta fase primitiva o samba de Cave tinha algo de idiossincrático, uma visão extremamente pessoal do samba, mas que coincidia com uma busca pelas raízes do samba como música pagã mas cujo apogeu era o fervor religioso que nele se imprimia através de perfomances que eram obrigatoriamente extremas em meios e entrega do artista. “Se o samba era uma árvore, eu procurava mostrar o estrume que a adubou, o nosso samba era uma merda, mas porque nós assim o pretendíamos”, confessou um Nick Cave já exilado em Inglaterra.

Foi aí que o seu samba encontrou um novo público, que por sua vez encontrou sempre sítios longe de qualquer manifestação sambística de Cave e seus aliados. No entanto, apesar de pequeno, começou-se a formar um grupo de aficionados que encontravam no samba de Cave algo que há muito faltava no samba algo mortiço dos grupos britânicos de então.

Porém, quando tudo apontava para uma maior aceitação deste samba primal, o impensável aconteceu; Cave dissolveu a banda, no decorrer de diversos problemas com drogas e álcool, sendo que os restantes membros da banda não achavam muita piada a Cave ter direito a ambas enquanto que a banda tinha de sambar noite e dia alimentada a chouriço. Cave então, como havia de ficar registado para a lenda, no final de um incendiário samba de 90 minutos, defecou no palco e gritou com as mãos cheias: “São demasiado bons para comerem chouriço? Merda para vocês!…”.

Muitos pensaram que era este o fim de Nick Cave e do seu samba, mas ainda havia muito para sambar, como veremos na segunda parte deste nosso estudo da carreira dessa luminária do samba, aquele a quem podemos sem pudor chamar o sambista escatológico.

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